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terça-feira, 28 de junho de 2016

NA CONTRAMÃO DA VIDA

     
     É tanto roubo, tanta armação, tantos assassinatos, tantos atentados fora crises econômicas, políticas e conjugais, e até existenciais, que a impressão que dá é de que estamos indo para o caminho contrário ao aprimoramento dos nossos próprios sentimentos, o que nos levaria a um estado elevado de constante paz interior, ou, simplesmente, de uma vida com muito mais pitadas de alegria.
     O que mais queremos da vida é ser amados, seja como uma pseudo-celebridade de um mundo qualquer, que pode até ser o de uma esquina obsoleta, ou como um ente querido que fica nas memórias aconchegantes dos seus para sempre. E o amor é bom sim. É a única coisa no mundo que não precisa vir acompanhada. Eu te amo! Pronto! Pode ser do pai, da mãe, de um primo, do melhor amigo, do amor da nossa vida e até de um transeunte numa pegadinha esdrúxula no meio da rua. Toca, mesmo que seja de leve. Surge um sorriso mesmo que não chegue a mostrar as covinhas de quem tem. Aquele instante vira um segundo pleno, de paz, de segurança, de sensação de estar no lugar certo, a gente se sente suficiente. E Pronto! Sem vinho, sem chocolate, sem flores. Apenas amor. E quem acha que precisa de mais é porque lhe falta muito amor... próprio.
    
     Lembre de um momento especial que alguém te disse eu te amo. Não importa o que veio antes ou depois. Fecha os olhos e lembra....  Bom né? Pois é... Então eu paro e penso. Se o amor é uma coisa tão maravilhosa porque nossos corações estão secando? Se é tão intenso, porque andamos na contramão dele?
     A gente está super a vontade com os amigos, então chega aquela pessoa que a gente está apaixonado. E tudo muda. A gente ajeita o cabelo e perde o jeito, se cala, se censura, ou passa a se gabar contando vantagens como se um “Como você está?” não fosse suficiente e dar atenção, escutar com zelo, querer saber de verdade, fossem coisas de outro mundo quando na verdade são os códigos do amor. Então, não precisa gel, escova, decote, silicone ou cartão de crédito. Um toque sincero na mão, um sorriso de cumplicidade genuína ou uma indignação abrupta ao ouvir uma injustiça pode acender uma chama que irá durar o resto da vida.
     E quanta injustiça! A atendente que deveria resolver seu problema, deixa você pendurado na espera até que corta a ligação. O garçom demora para vir atender o cliente, tira os pedidos de má vontade e mesmo assim acha lógico ganhar gorjeta no final. E os bancos que lucram com nossas movimentações e investimentos mas nos deixam plantados na fila em dia de pagamento. Como assim? Que inversão é essa? Estamos a serviço dos nossos serviços! Em plena contra mão! Assim como o nosso governo que deveria estar no comando por um sentido de dever com o povo, mas nos rouba e nos deixa na situação oposta do luxo que se colocam usufruindo de um poder que nós mesmos demos a eles. É quase que um cruzamento da Av. Paulista todo na contramão.  E quando uma viatura chega nessa encruzilhada não sabemos se ficamos ou corremos. Por que temos medo de quem nos tira dinheiro ao invés de nos proteger de quem nos rouba ele. Quanta falta de amor também quando se deita e dorme tranquilo no mesmo dia que se desviou o dinheiro da merenda escolar, do hospital do câncer infantil, que esta quase fechando. Da saúde como um todo, com grávidas expelindo bebês em corredores de hospitais públicos repletos de barbaridades e pacientes que morrem de câncer antes mesmo de começar o tratamento porque não há estrutura.
     Não para por aí. Em uma conjuntura ainda maior, os grandes países disputam regiões de petróleo, mercados, e querem bombando na bolsa de valores as ações de suas empresas, que podem estar destruindo o meu e o seu mundo, colocando-os na contra mão de um lucro que não vão poder usufruir a partir do dia que o Planeta Terra atingir temperaturas acima de 50 graus para sempre. E, apesar de todo dano e da vida curta, continuam inventando verdades para fazer guerras onde já morreram milhões de pessoas pelos motivos mais contrários ao amor.
     E ainda tem mais. Muito além da
realidade ainda estão os terroristas que usam o nome de um deus, que deveria ser a tradução de paz, para matar e se matarem tirando a vida que esse próprio deus lhes deu. Nessa caso "contra mão" é muito pouco.
    
É! Não podemos acabar com o terrorismo do Estado Islâmico. Mas podemos acabar com nosso terrorismo pessoal. Guardar nossas bombinhas de palito de fósforo e nossas armas de chumbinho que atingem diariamente as pessoas que amamos. O melhor para nós mesmos é aceitar que esse sentimento de altruísmo dite a nossa vida e não o orgulho proveniente da falta de auto estima. Tirar o ego do comando e promover o coração.
     Procurar uma pessoa que nos faça falta é uma demonstração de amor e não de fraqueza. Está afim, liga! Se a pessoa não corresponder, é porque ela está fora desse nível de paz interior ou estava ocupada. Vai! Dá o braço a torcer, admite que está errado, assume que falhou, pede desculpas. Arrisca vencer por mérito próprio. Corre atrás do sonho sem esquecer que malandragem é burrice e honestidade é consistência. E se mesmo assim não dar certo, pelo menos você tirou um caminhão das costas.     
Na contramão da vida também está essa sensação de derrota que temos com o sucesso de quem queremos bem, e nem é falta de amor, a não ser que seja o próprio. Dá aquela dorzinha no peito, aquele aperto na barriga. Sentimos que perdemos uma disputa que, na verdade, nem fazemos parte. Então se libera, curte a felicidade do seu amigo. Admira o conhecido que chegou onde você tanto queria. Aprende com o exemplo, se entrega a essa admiração, a esse amor e fica em paz.  Sem competir, sem querer copiar ou usar máscaras para não ficar por baixo. Sem inventar fofoca para desvalorizar quem está numa batalha tão dura quanto você. Quando a gente se quer bem não existe por cima ou por baixo, mas sim, lado a lado.
     Entramos na contra mão quando fazemos intriga principalmente porque admiramos. É tão pequeno detonar um colega e no outro dia pegar uma carona com ele. Ou meter o pau na namorada e na semana seguinte correr atrás dela. Como você pode colocar seu marido contra a própria família dele, se você diz que o ama?  É esse velho hábito de desvalorizar as pessoas para nos sentirmos melhor com nossas próprias falhas. E, às vezes, vemos nos outros até defeitos que não existem para nos sentirmos mais amados ou menos insignificantes. E isso é pegar um atalho pela contramão. É medíocre, nos faz inferior a quem estamos falando sobre e o risco é alto....
     Precisamos parar de trocar favores e passar a trocar gentilezas de coração, sem mandar a conta no final.  Por que um dia de alguma forma, tudo volta. Fazer o que tiver ao nosso alcance mesmo que seja para um estranho perdido no meio do caminho. Vamos abrir portas para os outros passarem sem nos sentirmos prejudicados. Maduros o suficiente para entender que a posição de ajudar é muito melhor do que a de ser ajudado. Vamos tocar vidas, ajudar pessoas a conquistarem seus sonhos sem qualquer interesse. Vamos jogar elogios no ar como um beija-flor que semeia a boa energia, a paz. Vamos ajudar às pessoas a construírem histórias lindas. É gratificante sim porque a troca que a gente faz não é com quem a gente ajuda mas sim com o universo. Então faz os outros felizes que a vida vai te fazer feliz também. E só ter paciência.
     Tem gente passa a vida brigando com pai ou com a mãe e quando um deles morre, desmorona. Então se dá conta da insignificância do desafeto. E a família é sempre o ponto fraco por que é o amor que mais precisamos. É esse amor ou falta dele, que dita quem nos tornaremos ou não. Então por pura conveniência faça as pazes com seus familiares mesmo que seja só internamente ou a uma certa distância. Entenda fraquezas, aceite que foi amado. Porque você foi sim, talvez não do jeito que você queria, mas na intensidade e forma que seus parentes eram capazes. E se eles não foram aptos ao amor, reze por eles e entenda que se você nasceu com eles é por que precisa ajudá-los. Essa diferença no pensamento é uma fundamental mudança para se sentir em paz. Só assim vamos estar prontos para dar amor, aquele que nunca tivemos e entender que não precisamos nos sentir culpados por sermos felizes num mundo repleto de infelicidades, afinal, a sensação de ouvir um eu te amo é muito boa, mas  a de dizer.. Ah ! Essa é muito melhor...

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