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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Salve, Santa Maria!


Estou revoltado! Indignado! Puto da vida com o fogo de artifício que causou o incêndio na boate Kiss em Santa Maria.  Será que ele não tinha uma mãe ou um pai para orientar que não devia desobedecer funcionando em locais fechados? Ou simplesmente um pouco de consciência, já que o alerta era claro na sua própria caixa, o que barateava o produto.
 E que castigo dar ao extintor de incêndio que não funcionou ou quiça estava vazio? Os bombeiros deveriam mantê-lo na prisão por tempo perpétuo até para não ser linchado pelo povo. É um absurdo! Quem ele pensa que é para falhar em um momento crucial como o dessa tragédia?
E a ingrata porta que não existia? Como pôde ela, se ausentar onde sua presença era deliberadamente necessária. Não foi capaz nem de mandar uma janela para arcar com sua própria falta. Uma covarde, irresponsável!
Mas a espuma!! Ah! Essa espuma insolente, invasiva... Se meteu onde não devia e intoxicou a maioria das vítimas. Essa espuma é de um caráter nefasto. Sórdida se manteve dissimulada entre os refletores e liberou seu veneno letal em um princípio de contato com o fogo. Rápida e rasteira, embora no teto.
Olha, para mim não existe outra explicação. Artefato pirotécnico, extintor de incêndio, espuma anti-ruido e porta de emergência estavam mancomunados no ensejo dessa tragédia. Só pode ser isso, porque alguém nervoso pode até não dar conta de fazer funcionar um extintor, mas é impossível conceber tamanha irresponsabilidade de um artista que manuseia algo proibido e perigoso para gastar R$ 2,50 ao invés de R$ 70,00. O que, se não falha minha matemática, é uma economia de 230 corpos empilhados. Vale?
É surreal que um proprietário ou gerente de um estabelecimento seja incapaz de projetar uma porta de emergência em uma casa noturna com capacidade para receber 691 pessoas, tipo de local onde confusões são corriqueiras. De repente, a ideia era exatamente essa. Em caso de brigas ou incêndios, não teria como os clientes escaparem sem pagar a comanda. Aliás, essa parece que era a orientação aos seguranças. E mesmo com apenas uma porta de pelo menos 2 metros, a boate Kiss tinha por volta do dobro da sua capacidade. Uns, inacreditavelmente, 1300 jovens sob espumas que são proibidas em casas noturnas por serem inflamáveis e altamente tóxicas.  Cá entre nós, é muita lambança para a racionalidade humana. Ou seja, é óbvio que a porta de emergência foi a mandante do crime e não apareceu para evitar suspeitas. Deve até ter um álibi.
Mas você pode estar na defesa do geralmente heroico extintor, ou da espuma que poupa barulho e deixa muita gente dormir. Talvez você perdoe os emocionantes fogos de artifício e até as salvadoras portas de emergência. E, certamente, atribui culpa ao vocalista da banda, aos donos da boate e até às instituições que, de forma incompetente ou e$pertamente concederam os alvarás indevidos para o funcionamento da Kiss. Eu até entendo, mas tenho de ser sincero: discordo de você! A responsabilidade não é deles. Não só, pelo menos.
E não estou dizendo isso porque sei que ninguém economiza R$ 67,50, ou uma porta de emergência para que 237 jovens morram. Nem porque o peso da culpa que essas pessoas, enquanto estiverem vivas – e devem estar bem vivas – terão sobre suas costas equivale a 3 infernos e meio e por isso a cadeia será um lounge para eles. Não. Não é isso. Quem matou aqueles jovens estudantes foi a nossa cultura, representada pela malandragem. Essa malandragem burra que não enxerga além do curto prazo. Esse valor imbecilóide encravado equivocadamente na cultura do melhor povo do mundo, que envaidece patéticamente quem o tem. Esperto é quem faz o certo porque evita problemas futuros, entre uma simples insônia a 237 mortes.
Vivemos em um país onde, logo após essa terrível tragédia, um dos homens mais corruptos do mundo passou a Presidência do Senado do Brasil para outro político denunciado pelos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos em negociações lucrativas. Um país que teve um presidente que confiscou a poupança para construir a casa da Dinda, não acabou com a inflação e ainda foi reeleito. Teve outro presidente que vendeu os maiores patrimônios do nosso Brasil, sem prestar contas. E também aquele que pagava mensalão com o dinheiro do povo, para conseguir governar.  Você acredita que algum deles voltaria para resgatar alguém de dentro da Kiss e morreria como os jovens heroicos que perderam a vida por total falta de malandragem?
Um país que tem gestores como esses em seus cargos mais importantes, não pode condenar um mero cantor que cometeu a mortal e plural irresponsabilidade de economizar alguns reais sem desviar um centavo sequer.  Pensemos nas milhares de crianças que morreram devido a ladroagem de políticos corruptos que roubam dinheiro do hospital do câncer. Quantos milhões de adultos morreram por causa de mais políticos que desviam o dinheiro da saúde em péssima qualidade de um país que bate record de arrecadação de impostos. Uma educação precária em um Brasil que gasta 82 bilhões por ano em corrupção. (segundo a Revista Veja)
O que são 82 bilhões roubados por políticos que deviam zelar pelo nosso patrimônio, pela nossa educação, bem estar e desenvolvimento enquanto cidadãos brasileiros, perto da espuma proibida ou da porta de emergência que não existia?
“Justiça a todos” bem pichou o jovem na fachada da boate Kiss. Não é porque nunca roubamos nem 1 real que estamos isentos desse crime. Todos nós que furamos filas ou o sinal por pura malandragem. Que não cumprimos palavras, nem compromissos. Que fugimos de nossas responsabilidades e das consequências de nossos atos. Todos nós que passamos a perna, traímos, que mentimos para fazer mal ou tiramos vantagens indevidas. Todos nós que pagamos propina para escapar ou conseguir algo, que burlamos leis.  Todos nós que nos corrompemos física e moralmente devido a essa malandragem humanamente ilícita que não tem nada a ver com o verdadeiro brasileiro.
Todos, esses tantos de nós, que agimos de má fé, acendemos o artefato pirotécnico proibido e demos o alvará indevido de funcionamento à boate. Nós também colocamos ilegalmente a espuma mortal no teto da casa noturna e negligenciamos a porta de emergência. Somos cúmplices dos incendiários. E não adianta negar. Nós que movimentamos e alimentamos essa cultura da malandragem, mesmo que indiretamente, também deixamos aquelas mães e pais sem um último Kiss de seus filhos universitários.
Em tantas cidades do mundo para que tal tragédia não acontecesse, ela surpreende na cidade universitária do interior gaúcho. Casualmente cidade natal dos meus pais, berço da minha família.  Mas por quê lá? Mera trágica coincidência? Acho difícil, porque realmente acredito que nada é por acaso, não é... Santa Maria? Mãe de Deus, rogai por nós os malandros agora e na hora de nossa morte... Amém.

2 comentários:

Guilherme Pereira disse...

Amém! Muito bem colocadas as palavras..

Se Alencar disse...

Amigo querido, Luciano

Ao ler seu texto, muitas lágrimas vieram aos meus olhos... tive que parar umas duas vezes para poder recomeçar a ler e conter a emoção.

A sobrecarga de informações sobre essa tragédia - chega a ser até mesmo uma espécie de exploração da dor alheia por parte da mídia - me fez pensar e refletir sobre a dor maior: a dos pais, esposos, filhos que ficaram. Se é triste ver a vida de um jovem se perder, com tantas perspectivas de um futuro brilhante, além de alegrias que poderiam vir a trazer às suas famílias, imagino a dor suprema que 239 jovens deixaram... Teve uma mãe que eu queria muito poder abraçá-la pois perdeu seus dois únicos filhos.
É fácil a gente colocar a culpa até no carma desses jovens, mas não olhar que os verdadeiros culpados somos nós mesmos que não lutamos para que a justiça e a verdade se estabeleçam nesse país. Na realidade, buscamos sempre um jeito mais fácil, uma monografia comprada, um extintor mais baratinho, uma dentadura, saco de cimento ou milheiro de tijolos para apoiar um determinado candidato...(os Renan Calheiros da vida...) Enfim, a culpa é sempre do outro, mas, em última análise, é do povo brasileiro.
Agora que continuemos a viver sem nos dedicar a dor do próximo, sem a caridade de ouvir as dores de nosso semelhante e vivamos cheios de receio quando nossos filhos saírem à noite para se divertir, pois nunca sabemos quando nossa inépcia e falta de responsabilidade recairá sobre nossos próprios ombros...
Obrigada Luciano, mais uma vez você me fez tirar da garganta palavras engasgadas dentro do meu coração.
Um abraço fraternal dessa amiga,
Semíramis Alencar