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domingo, 15 de maio de 2011

O IMPORTANTE É COMPETIR?

 
     Claro que não! Tudo bem que competir tem sua relevância, mas, meus caros, ninguém entra em uma competição para ser derrotado. Seja em que campo for, perder é sempre uma experiência desagradável. E, dependendo do grau de envolvimento na competição e do tamanho da crença de que somos os melhores, a dor da perda pode ser incomensurável.

     É humano se sentir diminuído diante de uma derrota. Uma mera batalha perdida pode ter um efeito psicológico devastador. Muitas vezes, você pensa em desistir de um ideal, outras vezes, se sente como um impostor, farsante da capacidade que deveras tem. É como se aquela derrota te tomasse por completo te deixando estendido sobre o tatame da vida com a sensação de que, caído ali, é o teu lugar.

     Mas não é! Simplesmente porque suas qualidades ainda continuam dentro da você. Mesmo que não tenha dado certo, mesmo que tenha sido um dia ruim ou que alguém tenha te sacaneado ou superado, o que você tem de bom ainda persiste e foi justamente esse seu valor que te trouxe até aquele exato instante onde sobressai um limite, seja seu, do tempo, do espaço, do momento ou da sorte, mas um limite que coloca de um lado sua capacidade e de outro a derrota. E elas não se misturam, pode ter certeza, a não ser, na próxima vitória.

     Você estuda durante anos e não passa no concurso. Treina durante toda vida para se classificar e na competição dos seus sonhos nem chega ao pódio. Muda de cidade por causa de um amor e ele acaba. Deixa a família de lado para se preparar para um cargo e quando aparece a vaga, seu colega é promovido. Seu time perde, você perde o horário, a oportunidade, aquela última chance. A sensação de todo um enorme esforço que foi em vão joga a ilusão de que tudo ia dar certo na lata do lixo.

     É chocante ser derrotado pela falta de caráter. Um gol de mão aos 45 minutos do segundo tempo, e lá se vai o campeonato. Uma armação traiçoeira e lá se vai o nosso emprego. Um desvio, um roubo que leva nosso dinheiro ou um bem. Uma mentira que coloca fim na nossa relação. É uma sensação de impotência arrebatadora, que nos consome porque a gente sabe que a oportunidade não foi desperdiçada por falta de talento, mas por pura injustiça, e ninguém percebe. Então parecemos insanos em uma postura de justificativa que nos promove a egóicos, a maus perdedores. E a gente se debate nesse beco sem saída como incompetentes e vai embora de cabeça baixa ou descontrolado, em dúvida da própria capacidade.

     Tem dor pior do que perder o que não se pode substituir? O tempo desperdiçado não volta nunca mais. Portanto não percam para o ócio e para monotonia. Passar a vida em vão é uma grande derrota. Perder quem a gente ama, então, é desesperador. Ser trocado por outra pessoa é doloroso demais, mas sempre passa, agora perder um ente querido para a morte, não há dor maior. Essa derrota sim é um nocaute duradouro, que a gente até levanta depois de um tempo, mas levanta incompleto e reaprende a vencer assim.

     Outra derrota que chega a ser sórdida é quando a gente perde para a gente mesmo. Perde a calma, a paciência e colocar tudo a perder: um relacionamento, o cargo tão almejado e até a vida. O mesmo acontece quando os instintos ganham da intuição, e a gente age como homens primitivos deixando de lado todo livre arbítrio que Deus nos deu. A gente perde para a raiva, a insegurança, o álcool, as drogas, para o desejo. Por fim, acabamos nos ferrando por nossas próprias e insensatas escolhas, atitudes. E essa derrota dói demais também, por que a gente olha para o lado e não vê culpados, a gente não reclama da sorte porque não foi o azar que causou a bancarrota, nem nossa falta de capacidade. Então se pergunta por quê? E são anos de terapia para entender por que nos fazemos mal. É como se a gente tivesse em uma disputa no ring e desse um soco na própria cara. O auto-boicote, meu caros, é a pior de todas as derrotas porque sabota justamente aquela pessoa que mais tem poder de te fazer vencer... você mesmo!

     E quando a gente vê lá de longe o pódio com os vencedores da nossa própria competição, não há nada que nos console, porque a derrota já está marcada no tempo e enjaulada no passado. Não podemos voltar porque a batalha foi encerrada. E, para a batalha encerrada, dane-se o competir...

     Agora, para o próximo embate a experiência da derrota é enriquecedora. Temos a possibilidade de corrigir enganos questionando suas causas, dividindo em erros técnicos e pessoais para aperfeiçoar o talento e melhorar motivação. Analisar a sorte para não distorcer capacidade ou a falta dela, é muito importante. E tirar os lobos em pele de cordeiros da nossa torcida também é fundamental. Afinal nenhuma vitória é solitária assim como nenhuma derrota. E quando a gente começa a pensar no que podia ter feito melhor, no esforço a mais que a gente não deu, na ingenuidade que nos levou a derrota, a gente distrai a tristeza, a frustração, a melancolia e se fortifica para a próxima vitória.
     Os grandes vencedores não são invictos, às vezes, tiveram perdas mais duras que essas nossas que nos deixam uma semana sem sair de casa. Os vencedores não estão no lugar mais alto do pódio porque desconhecem a derrota, mas sim porque levantaram, sacudiram a poeira e persistiram, aperfeiçoaram. Todo mundo sabe que a maior vitória é ser feliz. Talvez, o que nos falte é entender que a felicidade não se baseia no número de conquistas que tivemos, mas sim na nossa capacidade de levantar cada vez que se cai. Nossa força não se traduz em quanto a gente é capaz de bater, mas em quantas porradas da vida a gente é capaz de suportar:

“Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava...”

10 comentários:

NIELSEN disse...

Realmente entramos numa competição para vencermos e ficamos muitas vezes nos sentindo inferiores ao perdermos, mas isso faz parte da vida e ao longo dela, compreendemos que há perdas muito mais sérias e significantes, como a falta de um ente querido. Eu com um dia de vida, contraí uma infecção na maternidade e como consequencia, adquiri uma paralisia facial, que ao longo da minha vida, algumas pessoas reagiram com preconceitos, mas sempre dei a volta por cima e isso jamais foi um entrave para eu estudar, trabalhar, caí e levantei muitas vezes, mas sempre confiante na vida e em mim.

Estevam Von Claus disse...

Mais um assunto disseminado e dissecado pelo Luciano de uma forma coerente, coesa e plausível!


VITÓRIA, DERROTA...


A vida é uma montanha-russa de SUBIR e DESCER. UNS DESCEM A NÃO SE LEVANTAM. OUTROS SOBEM E NUNCA DESCEM. Terá uma fórmula para SEMPRE GANHAR?


CULPADO: NÓS OU OS OUTROS?


Cada dia é uma caminhada árdua, por isso devemos caminhar com o trovéu na mão, pois o VENCEDOR já é próprio prêmio QUANDO É MERECERDOR!


E quando não se é merecedor?


O LUCIANO EXPÕE, CONCATERNADAMENTE,
essas questões de ganhar, perder; culpados ou não... DE UMA COISA PRECISAMOS FAZER: IR EM FRENTE! MESMO SE O RESULTADO NÃO SEJA BOM, O QUE FAZ A JORNADA SER POSITIVA É SABER QUE NOS SUPERAMOS...


RESILIÊNCIA! PALAVRA CHAVE...


AO LUCIANO, PARABÉNS POR MAIS UM ENFOQUE LEVANTADO E BEM QUESTIONADO...

Os meus votos de mais temas para a nossa reflexão.


ABRAÇÃO!





ESTEVAM VON CLAUS

Lauriene disse...

No meu ponto de vista o importante é realmente TENTAR, pelo menos tentar.
Há quem diga que a frase " O importante não é vencer, e sim competir" é um consolo para quem perdeu a competição. Eu particularmente não analiso assim, acho que ganhar é o máximo mas, só ganha quem tenta. Se não tentar, como vai saber ? E, claro, diante de uma derrota ( por mais difícil que seja), recolha seus próprios cacos, não sinta pena de sí mesma(o)( pelo menos não por muito tempo rsss) e tente de novo.
O NÃO a vida já nos dá todos os dias, corra atrás do SIM !!!
E BOA SORTE SEMPRE !

Lú, adorei muito !

Lau

Taís Abreu disse...

A real competição é aquela que confrontamos com o ego, este que, muitas vezes pode ser o maior inimigo se não for bem doutrinado.
Vitória?! Já é uma grande vitória abrir os olhos pela manhã, levantar-se e ser livre para viver, sem dependências físicas, psicológicas, sem depender de ninguém.
O grande vitorioso é aquele que vence a si mesmo, controla seus vícios, ignora o preconceito, ama o próximo, pratica a caridade sem nada esperar em troca.
E mais, pode-se dizer que um vitorioso é aquele que questiona o seu papel no contexto da vida e admite que não é perfeito, assume a responsabilidade por suas escolhas, tem coragem e amor próprio.

Parabéns por mais uma bela crônica que agrega conhecimento reflexão em nossa existência.

Taís.

Luciano Cazz disse...

Meus queridos! Muito feliz com esses comentários. Obrigado, são ricos e opinativos, vcs me fazem crescer e aprimorar pontos de vista sempre. Abraço a todos.

pelezinho disse...

Eu diria que já nascemos competindo,somos eternos competidores,mesmo não querendo ser. Segundo meu velho papai,devemos é...APRENDER A PERDER,pois, só assim não sairemos derrotados, mesmo perdendo,eu mesmo sempre aprendi mais com minhas derrotas,vencer é fácil,todos gostam,todos sabem...perder meu amigo! aí é que são elas,não é pra qualquer um não. Todos,um dia,perderam ou irão perder a reação é que vai definir que tipo de pessoa voce é,o meu conselho é...LEVANTA,SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA....

Filosofia disse...

***

“ Para aqueles que são fortes os desafios são a própria razão da existência...
Enfrentá-los não significa lutar contra a vida, mas sim aprender com ela...
Basta ter coragem para dar o primeiro passo e tudo irá conspirar a seu favor...
Não existe nenhum instrumento capaz de produzir escuridão...
Ela é simplesmente a ausência de luz. ..
Um sinal de que algo está faltando...
Ou uma névoa que está impedindo uma visão mais clara da situação...
Mas a luz para iluminar o caminho está bem próxima: dentro de nós...
Somos seres de luz...
Quando conseguimos acender a percepção das nossas qualidades, todo o cenário se transforma... "


- Do livro: “A Paz de Todo Dia” – produzido pela Brahma Kumaris ...


A Paz chega quando cumprimos com os nossos deveres sem querer competir com ninguém p/ chegarmos ao pódio seja do que for nessa vida... ganhamos o que fizermos por merecer... Investir nas áreas que almejamos e nos esforçarmos para algo é louvável o que não é p/ esse fim e desonra...
( Tive muitas " PERDAS " que a compreenção da Doutrina Espírita nos ensinamentos de Allan Kardec e de Chico Xavier nos ensinaram que só foram transferências de dimensões... Meus Pais pela velhice , uma das minhas Irmãs, amigos... e o Marido Assassinado... Em um assalto... Muita vezes achei que a Vida fosse só Cinza... Venci essa visão opaca e hj vejo claridades nesses caminhos... haverá muitos dias ainda de nuvens... mas tenho certeza o SOL sempre estará em minha frente....) Que todos vençam as suas SOMBRAS... e brilhe suas luzes nesses caminhos de evolução...- Luciano... Muita paz e luz... Sempre em gratidão... Mille Bacci...

Maristella Bilmayer ...

***

Semíramis Alencar disse...

A questão é ancestral, amigo Luciano, social e antropologicamente somos seres competitivos por natureza.
Quando nos surge a necessidade de se realizar desejo é natural que lutemos por ele. Desde que surgimos primatas em busca da sobrevivência e da perpetuação da espécie acontece assim: lutamos. Lutamos para nos alimentar, para não virarmos comida, para procriarmos, para defendermos nossa cria. Chega a ser hipócrita e desprovida de verdade a afirmativa de que "O importante é participar" e que "O importante é competir" não. Quando competimos por algo desejamos sim obter o êxito, ficarmos em evidência, pois essa é uma condição básica da vida humana: a supremacia diante do outro. Assim, nossas vidas caminham por milênios e em nome da boa convivência social (evolução moral) trocamos os pedaços de paus e pedras da idade das cavernas pelos duelos violentos de justas na Idade média; o poder patriarcal dos feudos pelos democráticos acordos de cavalheiros do século XIX...Entretanto, com todos os avanços diplomáticos, lá no fundo, não deixamos de ser os mesmos primatas, guardamos interiormente o amargo sabor da derrota e o desejo de desforra com a máscara de fair play e um sorrisinho amarelo nos lábios. Teríamos ainda a coragem de dizer que somos assim tão conformados ao ponto de parabenizarmos nosso adversário ao final de uma disputa com o coração livre de qualquer ressentimento? o que nos move senão o desejo de nos superarmos, de nos fazer valer para nós mesmos. Afinal, quanto seres sociais, vivendo em relações não temos muita escolha - é travar o bom combate, sempre atentos ao respeito, mas não deixando de valorizar nossas conquistas quando com dignidade e honestidade

Viu, não me esqueci de comentar, apenas estou com meu tempo curtíssimo!

beijos menino!
Adoro vc!

Semíramis

Anônimo disse...

Excelente texo! Acho que reconheci a inspiração para a citação final...Bjão, Cá

Luciano Cazz disse...

Bem reconhecido Cá! bjo