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quarta-feira, 7 de julho de 2010

No Brasil, seleção rima com feriadão.

     No país dos feriados, dia de jogo da seleção em Copa do Mundo é dia folga. Um forte incentivo à imensa torcida brasileira, já que cada fase ultrapassada na competição é um feriado a mais no ano. É como se fosse um carnaval, mas sem os dias conseqüentes do original. Melhor, por que dá para recuperar as energias antes de fechar as ruas e comemorar novamente. Se o jogo cai na ponta do fim de semana, o povo vibra: feriadão!

     O que acho dessa folga toda? Sensacional! Porque quem sai ganhando não é o malandro brasileiro que o ano inteiro é folgado. Nem o político também brasileiro, que além de levar a fama de corrupto, trabalha apenas 3 dias na semana no Congresso. Quem aproveita para descansar é o trabalhador sério, que rala 4 meses do ano só para pagar os impostos do país da propina, dos desvios, das fraudes, dos golpes. Os impostos do país que mais arrecada no mundo, mas que também é o país da desigualdade e tem uma saúde precária. Um país que tem um alto custo de vida e salários injustos para os seus empregados.
    
     O povo brasileiro merece parar e vibrar com a sua seleção, um dos poucos orgulhos construídos por essa nação. Que a economia pare por alguns dias. Que os empresários lucrem um pouco menos e não consigam comprar um novo helicóptero. É Copa do Mundo! Não estou nem aí para a bolsa de valores. Ela não vai quebrar por causa dos feriados brasileiros.
     Então, quero é ver meus amigos vibrando. Passando um tempo a mais com a família ou viajando. Quero que em plena segunda-feira eles saiam do trabalho às 14h para tomar um chopp com mais amigos e comemorem muitos gols com sorrisos, abraços e brindes, esquecendo as eleições e a corrupção sim! E mais! Que se concentrem nas jogadas dentro do campo e esqueçam das crianças jogadas pela janela. Das ex-namoradas jogadas no fundo do lago com carro e tudo. Dos jogadores que posam com traficantes e mandam desossar suas ex-amantes.
     Que esqueçam também dos dribles que levaram da vida, das bolas na trave e dos penalts que não foram marcados na vida profissional. Dos carrinhos desleais que levaram de amigos e do todos os impedimentos do amor.
     E eles esquecem. Viram técnicos e xingam o Dunga como se ele fosse seu rigoroso chefe ou algum amigo traidor. Tocam a vuvuzela para suas ex-namoradas. Corneteiam os adversários ignorando suas próprias derrotas. Finalmente, tiram férias rápidas do jogo de um país desfalcado, de suas vidas desentrosadas.

     Então Luis Fabiano desencanta. O número 9 da seleção faz um golaço... de mão. A gente acha legal. Maradona disse que era a mão de Deus. E essa Tal Mão é a mesma que encarreira a cocaína e segura o aspirador de pó? Não. Essa é a mão da malandragem, que faz lembrar o que já se tinha esquecido. A mão do político recebendo propina, do criminoso pegando a arma. As mãos que estrangularam a menina Isabela. Jogo sujo, assim como o gol marcado e os corruptos que nunca são presos. Mas o gol de mão se transforma numa goleada e a gente esquece tudo de novo.
     Inacreditavelmente, Cacá é expulso de uma forma arbitrária enquanto o craque Elano é tirado da copa pela violência do adversário. Bate em nós a sensação de impotência. A mesma que sentimos no país da impunidade, que tem uma justiça para os ricos e outra para os pobres. Lembramos dos inocentes que foram covardemente assassinados como Daniela Peres, Eloá, João Hélio, Jean Charles, Daniel Duque, entre tantos. Apesar disso a vitória é incontestável. A goleada sobre o criminoso time da Costa do Marfim garante mais festa nas ruas brasileiras.

     Só que, ao invés de comemorar, Dunga xinga um jornalista em rede mundial com palavras de baixo calão. E a gente se perde de novo da emoção do futebol. Como em um flash-back, nos vem a condição miserável da educação pública do Brasil. E do preço cada vez mais absurdo da pilantropia privada. Vem também a gritante falta de limites dos muitos brasileiros que fazem usufruto do poder, do dinheiro e usam seu status - que não o de técnico da seleção brasileira - para dar mau exemplo no país dos bolas-murcha. Mas um simplório empate em 0 a 0 devolve a alegria ao povo. Estamos na próxima fase. Que venha o Chile!

     A goleado deixa o povo certo de que vamos ser Hexa. O início da partida com a Holanda também. Mas o jogo vira. A bolsa cai. A inflação sobe. Mais fraudes, assassinatos, políticos impunes. Sensação de tristeza ao sair três fases antes do esperado. É como viver no terceiro mundo tendo condições de ser primeiro. Foram as falhas individuais que fizeram do Brasil um perdedor. Pouco importa agora. Lá se foram nossos feriados extras.

     Ok! Os jogadores são milionários e não pagam nossas contas. Mas vamos admitir: foi bom vibrar com cada gol da seleção. É catarse que explode na adrenalina que talvez nos faça render mais no trabalho compensando toda folga. Também foi bom ver França e Itália eliminadas na primeira fase. E a goleada histórica sofrida pela Argentina?

     Mas a copa chega ao fim. Muitos comentam que os juízes foram condescendentes com a violência. Ora quem são eles para julgarem nosso judiciário?!! Passando isso vem o vazio. Ou a angústia de entender que o jogo da vida continua. Sem Elano também. Uma sensação parecida com ser eliminado pela Argentina. Aí nos resta pegar o estímulo de mais uma copa. De um grupo que, apesar de imperfeito, defendeu seu país com lealdade, garra, união. Às vezes, o Lúcio subia ao ataque e o Cacá ajudava na defesa. Mas cada um cumpriu seu papel particular com seriedade. Se nosso time de políticos jogasse assim, nosso país seria também o melhor de se viver.
     Que venha a Dilma! Mas que ela não escale na sua seleção o Felipe Melo nem o Adriano e muito menos o Bruno. E já que não nos resta opção melhor, que, pelo menos, a alegria de torcer pela seleção brasileira se estenda as nossas vidas como um estímulo para conquistas em família, entre amigos, no trabalho e no amor. Afinal, quem não quer ser penta-feliz?

     Então, vamos acabar com essa história, pura demagogia, de que torcer pelo Brasil em ano de eleição é feio. Feio é fingir que se é feliz, mesmo não sendo campeão de nada de bom nessa vida...

4 comentários:

Patrícia Tavares disse...

A-D-O-R-E-I Muito boa ! :D

Talita disse...

Adorei o texto, Lu. Muito boa a sua leitura desse "jogo da vida"!
Bjo

Semíramis Alencar disse...

E como todo carnaval, temos a quarta-feira de cinzas... nesse caso em especial, cinzas de tristeza e de decepção à nível nacional... de repente, o barulho das estridentes vuvuzelas deram lugar a um silêncio constrangedor - ninguém quer falar do assunto, comentar o problema - voltamos a nossa monotonia cotidiana - os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres - acabou o sonho idílico de mais um campeonato que para muitos é sinônimo de alienação proposta pela mídia e patrocinada pelo governo para fazer com que o povo não pense antes de votar... quem sabe estão eles certos e nós errados? que não é uma mera alegria de um povo tão sofrido que busca no futebol uma razão de viver?
A vida é um milagre e, a um só tempo temos vários gols a comemorar - a vida de um filho, o simples fato de respirar, de ver... quantos queriam ? e ainda vejo gente se lamentando da sorte do Brasil na copa, nas lágrimas dos jogadores - eles fizeram a parte deles, afinal receberam pra isso, alguns tem seus contratos renovados em seus clubes, outros receberam propostas melhores, outros ainda justamente demitidos para poderem pensar melhor sobre o rumo que suas vidas estão tomando - no matter! Devemos ver nosso próprio campeonato diário que será premiado com dádivas de alegria ou não - prêmio que depende unicamente de nós - seres viventes!
Luciano, Sempre preciso em suas colocações - num blog recheado de excelentes crônicas! parabéns, vc conseguiu mais uma vez me encantar

beijo da amiga

Se

Caren disse...

Adorei, luzito!